9.7.09

Ai Lisboa, Lisboa...



Eu estava lá, numa manta de arrepio.

29.5.09

Adormecer só depois de uma obra-prima



25.5.09

O projecto da minha vida

Tenho em mãos o mais bonito e ambicioso projecto da minha vida. É como um poema de Herberto, dos que buscam a ternura suprema. A particularidade - do projecto - é um Tejo que se vê quase por todo o lado e o inevitável dilúculo de já começar a ser feliz.

«Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

(...)

Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.»

Herberto Helder
(o poema - não o projecto - remeto carinhosamente para aqui)


10.4.09

Um tempo sem mentira

«meu sonho tem boca
que o digam meus ossos
tem dois olhos sobre a nuca

e reza todos os dias
que em todas as horas
houve um tempo
sem mentira»

Foge Foge Bandido

18.3.09

Fogo-de-santelmo ou «o lume vivo, que a marítima gente tem por santo»

Para que os navios sem mastro renasçam nas tormentas. Um dia uma música na flauta de um camponês desvia a tempestade para o mar, esse é o dia dos padrões de luz, pontas inimigas no bico de um pássaro. A ciência mal explicada é um pecado mortal, como rezar os mandamentos por ordem aleatória, graça de cheia Maria avé convosco sóis bendita vós senhor entre as mulheres, a ciência que bem explica é maldita e que arda no inferno todo o potencial eléctrico, a pagã ionização das moléculas, diabólicas umas, atómicas outras, um acto de fé para cada fotão, libertem-no, prendam-no, saltem de umas camadas tumulares para outras ainda piores, o dia está carregado de electricidade, Senhor, olha só que grande novidade nos dais. Ensinai São Telmo e Santo Elmo a nadar no fim das tempestades, mais braçadas e menos fogo-de-artifício. Elevem-se aos céus todos os .objectos pontiagudos, porque na terra é que não há explicações. O chão que pisas tanto é dos homens como dos cães.


Do mito se faz ciência.

25.2.09

Inteiro Ida

rectângulo com um furo e ainda assim a música, historicamente nada disso interessa, muitas estações atrás, quando passávamos o tempo a tentar adivinhar o futuro, o buraco, o futuro, sonho infantil numa língua estrangeira, agora a carruagem pára, pára onde?, faltam cinco para a uma, uma matemática sem sentido, próxima vontade: adormecer-te.

12.2.09

Os outros

Quem são aquelas pessoas que sorriem no terceiro plano da fotografia,
quem caminha na areia onde a fotografia não existe?

Canto superior esquerdo: duas pernas deitadas de um corpo que dorme.
Canto muito inferior direito: uma criança ensina os braços do pai a nadar.
Canto excessivamente superior centro: duas mãos de chumbo orientam uma aeronave.
Total enquadramento: um bebé com chapéu azul tenta esburacar o céu com uma pá de plástico.

Quem são aqueles dois que simulam segredos e depois se afastam,
e o outro que lê um romance sentado numa pedra?

Canto Superior esquerdo: uma falésia vaidosa penteia-se para a câmara.
Canto nem tanto inferior direito: a fogueira nocturna desfaz-se em soluços.
Canto do total desfoque: a bandeira da argentina olha para baixo com harmónica arrogância. Uma noiva de metal – nua - abre a porta paras os comboios passarem.

Pergunto às flores de todos os negativos do mundo:
Quem é essa gente que se faz de convidada?
Que fazem aqui esses espiões se não fomos ensinados a partilhar?

27.1.09

Canção majestosamente tragada pela hesitação

Para quê escrever o que não sou se as tuas mãos continuam doces?

Não há ninguém mais chato que o homem que não o é
e, ainda assim, quer ser tudo, escreve tudo como se o fosse.

Tudo o que digo sem o escrever não deve ser levado muito a sério. Está escrito.

É nas tuas mãos onde não poucas vezes adormeço,
embalado como o menino de todos os mimos do mundo.
É desses dedos que sai toda a palavra, ainda que breve, desordenada pela tempestade,
ainda que assinada por mim.
Arrancam-me palavras do corpo, na agitação do escuro espantado:
Se não amasses tanto, amanhã não amanheceria. Escreve o escuro espantado.

Para quê escrever todos os minutos, alimentar um simulador de paixões
(nome menos usual para a impotência da memória)
se só me interessa o que sou
e não sei ser nem metade da palavra do meu nome
sem a tua boca
e a minha boca na tua mão?

16.1.09

Metro Amarelo Azul

Vamos de burro ou de táxi?
Vamos em frente, bicos das botas no sítio, três luzes acesas no telemóvel a carvão
e a viagem que é uma avenida loura a roer as unhas
e a avenida que é uma tira de texto arrancada ao frio.

Há quem adormeça em movimento para não ter que ver o chão que pisa,
há quem limpe o chão para aliviar o peso dos passos.

Hoje, de vassoura em punho e tinta no papel dos segundos livres,
correspondo com a tempestade
escrevo para uma estatua egípcia
lambo o selo
imploro para que venha ver-me.

Vamos de burro, com flores, enfeitar o coração da estátua.

14.1.09

Hoje

14 de janeiro
todo o santo dia bateram à porta.
não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa.
o vento deve estar de feição.
a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.
desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer.
que mais posso desejar?
e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. n
em me parece que esteja feliz.
escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto

10.11.08

Inédito - Último capítulo

A ENTREVISTA

Deitaram-no numa marquesa especificamente criada para o efeito. Não era a primeira vez que entrevistava um morto, ocorrera-lha há tempos atrás que só ter cadeiras podia tornar aquela sala inútil.

- Você tem filhos, senhor não-João?
- Sim, quatro meus, outro da minha mulher.
- Muito bem. Eles trabalham?
- O mais novo, com seis anos, sim. Os outros ainda não conseguiram arranjar nada, tive que os mandar para a escola.
- Não desespere, senhor não-João, há-de compor-se. Diga uma coisa: você costuma levar sempre roupas ensanguentadas para o local de trabalho?
- Só quando me apunhalam e me matam, senhor presidente.
- Senhor Engenheiro não-João, gosta do ambiente da nossa empresa?
- Não sou Engenheiro.
- Desculpe, Senhor Engenheiro. E o ambiente?
- É como lhe digo, meu senhor. Gosto muito que me apunhalem e me matem. Só hoje já me aconteceu três vezes.
- Foi ao hospital?
- Os matemáticos não me levam, dizem-me que apanhe o eléctrico do vento.
- Não conheço essa paragem, Senhor não-João. De qualquer das formas lamento, mas você não preenche o perfil para o lugar a que se candidata.
- Já agora, qual era?
- Agente funerário. Por uma questão ética a nossa empresa só recruta pessoas vivas para esse lugar. Lamento.


O matemático engolia um martini enquanto tapava o cadáver com um lençol branco.
Telefonaram ao filho mais novo para lhe darem a notícia do penoso desaparecimento mas ninguém atendeu.


Se calhar estava a trabalhar…

FIM.

Ilustração: Elisabete Flores

24.10.08

Pausa

Um momento!
Avança a carruagem, diz que sim com a cabeça, abana a perna cruzada, sacode a fibra do pensamento.

Um momento que isto é um lugar-comum e os lugares são como barcos atrasados. Apitam por descarga de consciência, um momento em que as águas são profundas e eu sou uma faca a vapor com pressa de a cortar. O Tejo, à noite, é um enorme buraco negro, abrigo de enguias, gatos cegos e pretos e outras monstruosidades.

Um momento!
A vossa esmola tenha a bondade de me auxiliar por favor. Os vossos olhos tenham a vontade de me entender por favor. O vosso medo tenha a habilidade de me poupar por favor. A vossa flor por favor. Vosso que é tudo, bondade, por favor.

Um momento
e descarrila esse olhar dos trilhos da memória, o passado é inútil e eu estou aqui. Com uma faca, um gato, um amor monstruoso
e isto é um lugar-comum com pressa de amar a vapor.

20.10.08

Inédito - Capítulo Dois

A NAÇÃO


Lidera destacadamente todas as estatísticas. É um exemplo a ter em conta internacionalmente. Por exemplo, em documentos: ali está, naquela nação, a lista evidente de tudo o que não se deve fazer. Outro exemplo: tais por cento de emprego instável, mais de desemprego. Outro: telemóveis. Outro: maior taxa de imobilidade interna. Último: as estradas de sangue.

O governo é composto por um ditador que já morreu, controla as decisões e as contas do Estado por videoconferência a partir de Demasiado Longe Para Voltar – o país dos que morrem. Composto por um ditador e os súbditos que desgovernam como podem um país original.

Aconteceu isto:
O mundo levara um safanão de uma crise económica grave. São cíclicas, mal ou bem os livros explicam. Foi há setenta anos, altura em que a actual magistratura política de mortos-vivos subiu ao poder. Impunha-se uma visão estratégica, coragem política, ilusionismo puro. O problema só pode ser um, argumentava o governo e advertiam os padres nos sermões: as pessoas certas estão em locais incertos. E começou a deslocalização de trabalhadores. Agricultores foram retirados das searas, são bons é no departamento de finanças. Poetas impedidos de escrever foram simpaticamente obrigados, perdão convidados, a assumirem a foice. Bailarinas para os mercados de fruta. Vendedores para a gestão de teatros. Gestores para a informática. Matemáticos para o socorrismo e jornalismo. Lâmpadas para o amanhecer, jornalistas para as pescas, médicos para a estatística, talhantes para a medicina, afilhados para a cozinha do padrinho, cozinheiros para a manicura, afilhados para os tachos da cozinha do padrinho, licenciados para onde calhar, afilhados para os tachos da cozinha do padrinho do governo, filhos-da-mãe para a pátria-mãe. Vindimeiros para a poesia. O poema:

Pisava as uvas descalço nem que
Me arrancassem o coração em terra
Um dia arrancaram-mo mesmo
Para que fizesse ferida nesta canção.


Plantações de trigo e arroz convertidas em árvores de magnólia, longas extensões de tulipas. Passeios calcetados com estratos de contas bancárias. Fruta embalada em sacos plásticos, esmagada pelo ecstasy da coreografia contemporânea de embalamento de fruta. Situação do nível da água do mar publicada em boletins actualizados ao minuto, cardumes esquecidos na escrita. Projectos de lei aprovados com panasquice. Meteorologia calculada com filtros de mudar o óleo. Teatros cheios de público que vai ver qualquer coisa. Neste fim-de-semana morreram 300 pessoas durante as consultas médicas, 73 por cento da quais de uma faixa etária entre os 45 e os 70 anos, 56 por cento do sexo feminino. 58 por cento, segundo novos dados. Bitoques de colesterol em todas as mesas. Matemáticas Belas com desfibrilhador nas mãos, na emergência médica.


Quando os socorristas chegaram ao local, a poça líquida era já vermelha e não entrava luz pela janela. A menina faz-tudo ainda não fez nada relativamente à reparação dos estores.

Não respira, ganhei eu a aposta.

Do interior de uma porta dourada, com ramos de azevinho talhados na madeira, sai o presidente da empresa de mãos no bolso e um palito entre o bigode. Onde está o nosso candidato? Está a apetecer-me humilhar alguém numa entrevista. Depois de se inteirar da situação, elogiou os paramédicos pelo excelente desempenho e pediu-lhes simpaticamente que levassem aquele que não se chama João de maca para a sala de entrevistas.


15.10.08

Inédito - Capítulo Um

PROCURA-SE DELEGADO COMERCIAL PARA ESQUECER A VIDA
MÁXIMA URGÊNCIA


Urinou num vaso chinês, abrigado por um quadro renascentista e caiu para o lado. Os médicos do hospital ainda não sabem dizer se é finalmente desta que morre, está em fila de espera para a triagem. Mas só nas alucinações do choque hipovolémico: a ambulância ainda não chegou.


A ambulância tem a bandeira de um país oco e é conduzida por um cidadão comum, licenciado em engenharia eólica. Está bloqueada no trânsito, carrinhas do pão estacionadas em segunda via, rotativos ligados com gemidos.


- Esta emergência não traz bons ventos nem boas marés.
- Cala-te e acelera!
- Para onde, para cima deste camião? Esse leva bons elementos e cerveja aos pontapés…
- Cala-te e espera!


As ventoinhas gigantes, pomposas instalações nas Serras, são geridas pela energia alternativa de um pedreiro, afilhado do presidente da junta, e por dois licenciados em filosofia do século onze, portanto: engenheiros.


Urinou não. O líquido urinou-o a ele. Aguentou, aguentou, só mais um bocadinho que já fala com o senhor director, esperou, esperou, o senhor entrevistador já deve estar quase a chegar, resistiu, resistiu, rins a gritar com facas, resistiu, são só mais uns vinte minutinhos e já está, o senhor consultor mais não demora, e caiu redondo no chão com máscara de incêndio para não se afogar na poça líquida. Urina não: medo.


O socorrista aplaude com alegria. O engarrafamento pulverizou-se em menos de quarenta minutos e, mesmo que já morto, ainda apanhamos a vítima quentinha. É sempre muito pragmático nessas coisas, formado na faculdade de Belas Matemáticas só arranjou vaga profissional nas tabelas de emergência médica. O socorro é uma soma invertida de equações, a vida é como uma tabuado, mas mais finita. É um bom profissional. Os números, lá estão: 20% dos casos com sucesso, só 80% de falecidos a suas mãos. Um sucesso.


O condutor da rosa-dos-ventos desfia-o:

- O Joãozinho foi para a escola e levou seis bananas, cinco caíram com ele na antecâmara da sua milésima entrevista de emprego, uma ficou suspensa no ar. Apesar da queda de Joãozinho, ele queria fazer chichi mas não teve tempo. Quantas bananas pode comer o Joãozinho, se não estiver morto? Quantos Joãozinhos vão conseguir emprego na empresa de distribuição de bananas? E quantas bananas podem comprar esses meninos com a miséria de salário que lhes propõem?
- Cala-te, ele recupera!


Não se chama João este homem no chão. Agora repousa sobre uma toalha humedecida colocada debaixo do seu corpo pela telefonista-secretária-porteira-gestora-de-recursos-humanos-malabarista-economista que agora rega as plantas enquanto assina uma papelada.




* ilustração: Elizabete Flores

8.10.08

Olá Sílvio,
diz olá aos meninos, diz olá aos que cresceram demasiado e aos que só agora começam a crescer, diz olá a todos de quem esqueceste o nome, às palavras desnecessárias do passado, diz olá aos desagradáveis, diz-lhes como é tão fácil ser também desagradável, essa forma de vestir dá-me arrepios na anca seu filho da mãe, diz olá aos morcegos, um dia inteiro em directo na internet, diz olá aos morcegos que estão de pernas para o ar porque não sabem que estão a ser filmados,

diz,

olá, que de alguma maneira estás de volta, sacudidos os fantasmas, longas batalhas de silêncio, um bem-estar demasiado bem-estar para querer escrever, diz olá-verde quando deverias dizer olá-vermelho ao semáforo avariado, diz olá-desculpa ao idoso que dorme na rua e que nunca foste capaz de amparar, diz olá a todos eu voltei a escrever porque penso que assim é que é, diz olá à expressão assim que é e espera que te responda, diz

olá

aos matulões que adormecem na biblioteca a ver paisagens orientais, diz olá a ti mesmo, ao espelho da tua borbulha, ao espelho distorcido da tua nudez, diz olá aos meses de espera vã sem uma única linha para no fim dizeres isto, olá-por-editar, para no fim dizeres olá a todas as coisas bonitas que querias escrever no mundo,

diz olá ao mundo que ainda não quebraste e a tudo o que hás-de escrever.